A Rua do Inferno

Ruídos de um parque de diversões. Gritos da montanha russa se fundem num único grito. Silêncio. A luz se acende e três mulheres jovens, com vestidos de dança flamenca, começam a conversar sobre o que teria acontecido.

A Rua do Inferno é uma peça em quadros na qual três jovens mulheres, funcionárias de um supermercado, revelam suas frustrações, seus desejos, suas solidões no mundo moderno.

Há um concurso de dança flamenca. Uma delas dança muito bem. As outras duas a disputam como par porque com ela a vitória é certa. Ela, a que dança muito bem, é casada. Outra é amante do marido dela, com quem costuma se encontrar no estoque do supermercado. A terceira foi possuída, por engano, enquanto fumava escondida no escuro, pelo mesmo marido que pensava encontrar-se com a amante.

Uma delas revela à amiga a traição de ambas. Mas ela já sabia. E saber não é o pior. Horrível é perceber que o amor não existe, que tudo não passa de um jogo comercial e que a vida não oferece nada de graça.

E ela pula da roda gigante.

Numa narrativa não linear, a peça começa com essa morte para, em seguida, não apenas explicar o que tinha acontecido, mas revelar a aridez da vida destas três mulheres que se assemelham a tantas outras que precisam encarar a vida moderna.

Primeiro texto de autor contemporâneo encenado pela Companhia, este espetáculo estreou no Teatro Municipal MariaClara Machado em 2007 e realizou uma pequena turnê pelo interior do Estado do Rio passando pelos Sescs de São João de Meriti, Niterói, Engenho de Dentro, Nova Friburgo e, integrando um projeto de circulação da Secretaria de Cultura do Estado do Rio, foi também a Itaocara.

Elenco:

Mariana Oliveira (Ana Alkimim)
Fernanda Maia
Viviana Rocha

Ficha Técnica:

Texto: Antonio Onetti
Tradução: António Gonçalves

Diretor : Antonio Guedes
Dramaturgia: Fátima Saadi
Cenário: Luís Henrique Sá
Figurino: Mauro Leite
Direção musical: Paula Leal
Iluminação: Binho Schaefer

Crítica

Surpresas e conflitos no supermercado
“A Rua do Inferno”
Lionel Fischer – Tribuna da Imprensa – 08/11/2007

Sempre que assistimos a um espetáculo – que não seja de dança, pantomima, mímica etc. – sempre nos preocupamos, inicialmente, em apreender ao máximo as pretensões do autor. No presente caso, estamos diante de três jovens que trabalham em um supermercado, cada uma exercendo uma função específica. Parecem amigas e se comportam como tal até o momento em que um concurso de sevilhana (dançada aos pares) faz aflorar algumas incompatibilidades entre elas.

Eis, em resumo, o enredo de “A Rua do Inferno”, do espanhol Antonio Onetti. Mais recente produção do grupo Teatro do Pequeno Gesto, a montagem, em cartaz no Teatro Maria Clara Machado (Planetário da Gávea) chega à cena com direção de Antonio Guedes e elenco formado por Ana Alkimim, Fernanda Maia e Viviana Rocha.

Inicialmente, nossa impressão foi a de que o autor utilizaria o supermercado não em seu sentido óbvio, mas como possível metáfora do mundo contemporâneo. E talvez tenha sido esta a sua intenção, mas logo percebemos que os conflitos entre as personagens poderiam existir independentemente do local de trabalho comum.

E também nos surpreendeu o fato de que boa parte da peça é consumida com o tema da traição, só se tornando realmente mais interessante quando as três jovens começam a falar de si mesmas, diretamente com a platéia, e aí afloram questões mais pertinentes, abrangendo a solidão, a inveja, a necessidade de amar, a excessiva preocupação com o corpo etc.

Quanto ao espetáculo, e fugindo um pouco à estética habitual do grupo, Antonio Guedes trabalha a cena em um ritmo mais acelerado do que de costume, e também consegue criar marcas surpreendentes e divertidas, afora o fato de ter feito ótimo trabalho junto às atrizes. Ana Alkimim (Paqui), Viviana Rocha (Toñi) e Fernanda Maia (Juani) exibem atuações seguras e convincentes, tanto do ponto de vista vocal como corporal.

Mas cabe conferir algum destaque a Fernanda Maia, na realidade a protagonista, pois muito do texto gira em torno da traição de seu marido com as amigas (o que a leva a proferir algumas considerações interessantes) e também é ela que carrega a maior carga dramática, assumindo sua mediocridade – o mais correto seria dizer mediania – e sobretudo seu desespero em face de um mundo que parece nada ter a lhe oferecer que mereça ser vivido.

No tocante à equipe técnica, Antônio Gonçalves assina boa tradução, sendo de ótimo nível o singelo, multicolorido e abstrato cenário de Luiz Henrique Sá. Mauro Leite responde por corretos figurinos, a mesma correção presente na iluminação de Binho Schaefer e na música original de Paula Leal.