Penélope

Estreou em 1995 e, após duas temporadas no Rio, o espetáculo foi convidado a participar do II Porto Alegre em Cenaea integrar o projeto Teatro nas Universidades, promovido pela Prefeitura do Rio. Em 2001, retornando ao repertório, foi convidado para o Festival Nacional de Garanhuns (PE) e para o Festival de Inverno de Ouro Preto (MG).

Penélope, inspirada na Odisséia, de Homero, relata a noite anterior à chegada de Ulisses à sua casa, onde sua mulher o espera há vinte anos, lutando para se livrar do assédio dos pretendentes que desejam obter a sua mão e, assim, apoderarem-se dos tesouros do reino.

Elenco:

Helena Varvaki
Antonio Guedes / Julia Merquior / Simone André

Ficha Técnica:

Autores: Fátima Saadi e Antonio Guedes
Direção: Antonio Guedes
Dramaturgista: Fátima Saadi
Cenário: Doris Rollemberg
Figurinos: Helena Varvaki
Música: Rodolfo Caesar
Iluminação: Antonio Guedes
Foto: Guga Melgar

Crítica

Grupo reafirma talento em ótima versão do mito
Lionel Fischer
Tribuna da Imprensa, 13/06/95

Após aguardar a volta de Odisseu por 20 anos – ele partira para guerrear Tróia –, Penélope se vê obrigada a escolher um dos muitos pretendentes alojados em seu palácio. Na véspera dessa escolha, durante uma noite de insônia, ela relembra sua relação com o marido e tenta compreender por que orientara toda a sua vida em função do hipotético retomo. Pouco a pouco, ela se deixa envolver completamente por lembranças idealizadas, inteiramente alheia ao futuro que a aguarda. É este, em resumo, o enredo de “Penélope”, texto de Fátima Saadi e Antonio Guedes a partir do original de Homero. Dirigido por Guedes e protagonizado por Helena Varvaki, o espetáculo da Companhia Teatro do Pequeno Gesto fica em cartaz no Carlos Gomes só até o próximo domingo, com sessões de quinta a domingo, às 19h.

Quarto espetáculo da companhia – os anteriores foram “Quando nós os mortos despertarmos”, “O marinheiro” e “Valsa n° 6” -, “Penélope” confirma uma vez mais a alta qualidade deste grupo ainda pouco conhecido, mas que sem dúvida vem trilhando um caminho da maior significação para o teatro carioca. Na atual montagem, como nas demais, verificamos a mesma excelência no que diz respeito ao trabalho do ator e à dinâmica cênica, despojada em sua aparência, mas extremamente expressiva na materialização dos conteúdos propostos.

Explorando com sensibilidade a ótima cenografia de Doris Rollemberg, que converte a rede em que está envolta a personagem em manifestação simbólica de suas angústias, o diretor Antonio Guedes impõe à cena uma atmosfera que possibilita ao espectador apreender toda a amarga trajetória emocional da protagonista e sua posterior libertação dos fantasmas que a atormentavam. Preciso no tocante ao ritmo e de uma beleza que advém de marcações que levam a intérprete a realizar um trabalho gestual esmerado, o espetáculo merece ser prestigiado de forma incondicional em sua curtíssima temporada.

Helena Varvaki é uma atriz de sólida formação teórica e com grande domínio de seus recursos expressivos, sobretudo corporais. Além disso, costuma entregar-se por completo às personagens que interpreta, delas extraindo o que de mais significativo podem oferecer. Assim, em nada nos surpreende sua brilhante atuação, que combina inteligência e paixão em doses mais do que generosas, e permite uma aproximação gratificante com a mitológica mulher que a tudo renuncia em nome do amor.

No complemento da equipe técnica, gostaríamos de destacar a engenhosa “saia” de Penélope confeccionada pelo pescador José Manuel Rebouças – acoplada a uma gigantesca rede, sugere o prolongamento da teia que aprisiona a protagonista às suas lembranças. Outro trabalho de alto nível é a composição eletroacústica de Rodolfo Caesar – é impressionante como a cena adquire dramaticidade e poesia através de sons de vidro, água, choro e falas da atriz. Com relação à iluminação, esta é bastante expressiva em sua simplicidade, e só lamentamos não poder citar o nome do autor, que não consta do programa da peça.